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November 28, 2014 - No Comments!

Quatro livros

Em dois meses passados em Lisboa comprei quatro livros. Acho que não me arrependerei da compra de nenhum deles.

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Devorei o "Ouro e Cinza" do Paulo Varela Gomes. Portugal é um país de cronistas, e muitos de nós aprenderam a ler graças às colunas do Público ou do Expresso. Pedro Mexia, Eduardo Prado Coelho, Miguel Esteves Cardoso, Manuel António Pina et caetera. Talvez me engane, mas nunca vi tanto espaço, ou tão nobre, dedicado à arte de ter uma opinião noutros jornais que consulto. No Libération estão condenados lá para o fim, todos juntos, nas páginas mais feias do quotidiano francês. No Le Monde nunca retive nenhum nome de cronista. Mas aqui em Portugal gostamos dessa fórmula do pequeno texto que fale de nada e de tudo e que salta de tema em tema com um olhar um pouco afastado, porventura semelhante ao homem da rua que tem ali um porta-voz.

November 21, 2014 - No Comments!

A praga da palavra ‘gourmet’ em Portugal.

 

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Uma das coisas de que mais gostava em Bruxelas, um dos meus maiores prazeres, era ir ao mercado ao Sábado ou ao Domingo de manhã.

Devido aos muitos anos de especulação imobiliária e de destruição massiva do património que já não interessava economicamente, não restam muitos mercados cobertos em Bruxelas – definitivamente uma cidade que não gosta dela própria.

A zona onde morei durante os últimos quatro anos – assim uma mistura de Anjos e Mouraria, ou seja, artistas precários, famílias de classe média, imigrantes, malta da boémia, tudo bastante à esquerda – possuía o mercado mais antigo da cidade. Tinha lugar todas as manhãs, e à quinta-feira havia uma versão maior, alargada àquilo que em Portugal se conviria a chamar ‘gourmet’ – mas com a vantagem de ninguém lhe chamar assim (mas de qualquer modo nunca ia lá à quinta). Um tipo saía de casa relativamente de manhã, lá para as onze, e fazia-se a ronda dos comerciantes. Haviam sempre dois ou três italianos que tanto vendiam produtos de base – umas massas especiais, queijos – como produtos mais sofisticados. Comprava uns arancini, um fiambre com rosmaninho de chorar por mais, e depois passava noutro vendedor com uma escolha pletórica de queijo e charcutaria, de Espanha, de França, de Itália, e saía de lá com umas fatias de pancetta, com um comté, com um morbier. Depois passava pela tenda biológica, um pâté caseiro e tal, e um saltinho à mercearia portuguesa com a vitrine cheia de erros, para ir comprar pão, mais chá e uns legumes na loja do casal dinamarquês-marroquino onde havia produtos dos dois países, e ia feliz para casa para preparar o brunch, ritual semanal com restantes membros da quasi-família com quem morava.

Aqui em Lisboa a malta parece alérgica aos vocábulos “brunch”, “rúcula” e quejandos, e eu percebo: é porque vêm associados a outros termos, estes insuportáveis: “gourmet”, “urbano”, “de bairro”. Mas, na verdade, não há nada de mal em comer rúcula - que mais não é que uma erva daninha – ou produtos de boa qualidade, ou legumes que chegam um pouco mais tarde a Portugal devido à nossa eterna condição periférica. Em Bruxelas, para além dos produtos trazidos pelas comunidades imigrantes, viam-se de novo legumes e frutos que tinham sido esquecidos, postos certamente à margem pela estandardização forçada pela grande distribuição. Em Portugal parece-me que é ainda é complicado sair da lógica do hipermercado, e que os grandes grupos têm quase um monopólio sobre aquilo que se come.

Mas o que é insuportável em Lisboa, onde os mercados são paulatinamente substituídos por lojas ‘gourmet’, é que esses novos produtos não parecem ter sido trazidos por imigrantes ou pessoas interessadas em comer melhor, mas pelas tias dos bairros abastados que foram uma e outra vez passar o fim-de-semana a Londres e que acharam “giríssimo” o “conceito” de mercado, aquela gente toda e não-sei-quê, e se fizéssemos o mesmo em Lisboa? É a mesmo tipo de tia que vi na LX Factory a vender artesanato (mais uma vez) giríssimo e cheio de cores, e que se apropriou estranhamente de lugares onde existe outro tipo de população - como os mercados. Uma espécie de gentrificação à portuguesa. E assim, comer rúcula em Lisboa tornou-se terrivelmente snob.

Aquilo que gostava em Saint-Gilles era de fazer a volta ao mundo em meia-dúzia de metros, e maravilhar-me diante de cousas deliciosas – sem que alguém se tivesse lembrado de lhe pôr o nome ‘gourmet’.

 

 

 

October 31, 2014 - No Comments!

Lisboa

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Lisboa é a capital rica de um país pobre. Pelo menos é essa a sensação que fica após quatro semanas cá. É uma capital onde o metro passa por vezes de dez em dez minutos, mas algumas das estações por onde ele passa são as mais majestosas que já vi, do tamanho de palácios. É uma capital onde existem montes de museus interessantes, alguns de fazer corar de inveja outras capitais de tamanho equivalente e PIB bem mais elevado – mas num país cuja segunda cidade, com a exceção honrosa de Serralves, corresponde a um quasi-deserto museológico (podes tirar o homem do Porto, mas não podes tirar o Porto do homem). É uma capital onde, como em todas as outras, se passa num piscar de olhos do bonito ao feio. A diferença é que tudo aqui parece mais contrastado, e o bonito é-o muitas vezes belíssimo, sublime, absolutamente único e o feio digno de um pesadelo do qual só se quer ir embora muito rapidamente. Experimentem ir até Sintra pelo IC19, por exemplo.

Algumas cidades (o Porto, Bruxelas) escaparam mais ou menos a este urbanismo de subúrbio selvagem e feito à pressa, mas ao passar de carro por Benfica, Buraca, Queluz só consigo pensar numa versão pior das barras de betão parisienses onde os portugueses como nós foram alojados nos anos sessenta. Descampados, alguns campos com vacas e vagos terrenos cultivados, e depois torres de dez andares e auto-estradas, muitas auto-estradas, e parece que tudo o que foi planeado nos últimos quarenta anos em Lisboa o foi a pensar que todo o lisboeta teria carro. E a verdade é que parece que tem.

E ao mesmo tempo vai-se aos bairros históricos, às casas de calcário e azulejos, adivinha-se o Tejo por trás, e à arquitetura português suave extraordinariamente rica em detalhes gráficos, as portas em metal, as dezenas de praças com quiosques e árvores, as ruas encavalitadas umas nas outras, uma loja que, critique-se ou não, deve ser a mais bela que já vi (a da vida portuguesa no Indentente), a óbvia cor e a luz que ainda não vi noutro lado, e Sintra e o Guincho, e isto tudo é uma fonte inesgotável de estímulo visual para um designer gráfico. E um dos lugares mais bonitos do mundo.

December 2, 2014 - No Comments!

O Porto, por Pacheco Pereira

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Depois de um fim-de-semana passado no Porto, dei por mim a ler este texto do Pacheco Pereira encontrado n'A Cidade Surpreendente.

«O Porto é uma cidade muito diferente de Lisboa, é diferente crescer e viver no Porto ou em Lisboa. As pessoas em Lisboa não têm consciência disso, as do Porto admito que tenham outro tipo de consciência. Poderia ter sido uma cidade do Thomas Mann, muito parecida com as cidades hanseáticas, como Lübeck, onde ele viveu. É uma cidade burguesa no verdadeiro sentido do termo. Tem valores muito parecidos com as cidades do Norte, onde os comerciantes eram liberais e se interessavam pela cultura.
Sempre foi um mundo que valorizou o trabalho de uma forma diferente do que acontecia em Lisboa. Era a cidade das grandes fábricas. As grandes fábricas têxteis estavam no Norte, deram o nome a clubes de futebol – Paranhos, Boavista. Falo de fábricas com milhares de trabalhadores, típicas do período de crescimento da Revolução Industrial.
O Porto é uma cidade do trabalho, quer nas antigas corporações quer nas antigas tradições, ainda muito marcadas pelos nomes nas ruas. Muitas igrejas, muitas instituições têm a marca do trabalho corporativo, mas a cidade também teve esse papel. O Ramalho Ortigão escreveu que no Porto não se conseguia andar meia dúzia de metros sem encontrar uma tabuleta de uma associação mutualista. Na própria conjugação do movimento operário, é uma cidade muito mais socialista do que anarquista, enquanto em Lisboa havia uma tradição forte de anarcossindicalismo. Acima de tudo, tem uma burguesia liberal que esteve no cerne de todo o processo do liberalismo novecentista. Não foi por acaso que D. Pedro deixou lá o coração.

Quem conheça a História do Porto sabe que é uma cidade que resistiu violentamente ao Estado Novo, como os grandes combates de 1927. Foram no Porto os grandes comícios da oposição: o comício do Norton de Matos [janeiro de 1949] e a receção ao Humberto Delgado [maio de 1958] que é gigantesca, a cidade sai à rua. Não há paralelo, esse comício mudou toda a história da campanha do Delgado, mudou toda a história política a partir de 1958.
É uma cidade com as suas instituições, os seus clubes, o Ateneu, um certo tipo de tradições culturais de uma elite fabril, industrial e ligada à imprensa – O Primeiro de Janeiro e O Comércio do Porto têm essa origem. Muito da vida da cidade faz-se de cima para baixo e de baixo para cima. Isso leva a que o Porto tenha uma respiração de liberdade que não veio com o telégrafo nem veio de França. Ainda hoje, é a cidade que tem o trabalho e o sacrifício pelo País no nome e no símbolo de tripeiro, e que se reconhece nesses valores.
Durante o salazarismo, muitas instituições universitárias do Porto fecharam e as que sobreviveram tiveram uma vida muito difícil. Mas havia escolas com uma grande repercussão nacional – Engenharia, Medicina, Ciências, Arquitetura, Belas-Artes. No Porto estão alguns dos primeiros edifícios de arquitetura moderna, muitas vezes feitos por pessoas que ganhavam dinheiro na indústria e que eram mecenas de artistas. Nos anos 1920, construíram-se cópias da arquitetura social de Viena. Junto da casa do Eugénio de Andrade, quando ele morava no 111 da rua Duque de Loulé *, havia um grande bairro feito a partir das ideias da arquitetura socialista, uma espécie de falanstério. E havia vários desses.
E depois havia as “ilhas”, outra realidade muito associada à industrialização rápida, aí sim, mais pobres. Eram uma solução de emergência, especulativa, em relação à pressão industrial, para albergar um número muito significativo de operários que vinham das zonas rurais do interior. Algumas epidemias de cólera e de tifo tiveram aí o seu desenvolvimento e o salazarismo viu-se na necessidade de criar os bairros sociais que reproduzem o fenómeno das “ilhas” para os dias de hoje.
O Porto é uma cidade liberal mas não jacobina. Lisboa é mais jacobina do que liberal, na sua história política e social. Eu nunca deixei o Porto. Havia umas personagens do teatro japonês que andavam sem nunca levantar os pés porque se o fizessem era sinal de que perdiam o contacto. E eu também: os meus pés estão lá sempre, sempre em cima daquela terra, é lá que me sinto bem.»

February 9, 2015 - No Comments!

Lisboa

Tive a fortuna de morar sempre em apartamentos formidáveis, apesar de ser estudante e mais tarde precário.

Em Lorient, cidadezinha operária e por consequência barata, cheguei a partilhar um jardim de oitocentos metros quadrados, com grandes árvores, baloiço e horta com tomates, alcachofras, abóboras, e jantares com toda a vizinhança.

Em Bruxelas morei seis meses numa das ruas mais bonitas de Bruxelas, com moradias arte nova, num último andar com mezanine em madeira e vista sobre o parque. Depois fui para um apartamento partilhado de 230 metros quadrados, a um punhado de centenas de metros da Grand Place. A nossa sala era maior que muitos apartamentos parisienses, grande que chegue para receber cem ou cento e cinquenta pessoas quando organizávamos concertos e festas. Depois estive num apartamento burguês, com portadas com vitrais, tectos altos, chaminés em mármore. E fiquei dois anos num apartamento partilhado num imóvel de interesse público, também lindíssimo, com os melhores colegas de casa e vizinhos que se possam imaginar, no bairro mais fixe de Bruxelas.

E agora temos um apartamento em Lisboa, em Sapadores, naquele triângulo entre Graça, Penha de França e Anjos, e vai de certeza ser tão bom como os outros.