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November 11, 2015 - No Comments!

Esquerda e direita

Não acredito em milagres, mas acredito em mudanças de rumo. Portugal tinha um governo de direita muito agressivo, a milhas do que é a direita em França ou na Bélgica que nunca desmantelaria o Estado social como o governo de Passos Coelho o fez. De todos os países que conheço bem, é em Portugal que a tensão social (mascarada de meritocracia) se faz mais sentir, e onde parece natural haver castas sócio-económicas, sem mobilidade nem justiça social. Não acredito em milagres, mas se tudo correr bem este governo de esquerda apontará na direcção de um país mais solidário, mais igualitário e mais justo, ou pelo menos tentará sarar as feridas de tantos anos de capitalismo o mais selvagem e desavergonhado possível. E não é preciso ser de esquerda radical para o constatar.

November 21, 2014 - No Comments!

A praga da palavra ‘gourmet’ em Portugal.

 

mercadogourmet

 

Uma das coisas de que mais gostava em Bruxelas, um dos meus maiores prazeres, era ir ao mercado ao Sábado ou ao Domingo de manhã.

Devido aos muitos anos de especulação imobiliária e de destruição massiva do património que já não interessava economicamente, não restam muitos mercados cobertos em Bruxelas – definitivamente uma cidade que não gosta dela própria.

A zona onde morei durante os últimos quatro anos – assim uma mistura de Anjos e Mouraria, ou seja, artistas precários, famílias de classe média, imigrantes, malta da boémia, tudo bastante à esquerda – possuía o mercado mais antigo da cidade. Tinha lugar todas as manhãs, e à quinta-feira havia uma versão maior, alargada àquilo que em Portugal se conviria a chamar ‘gourmet’ – mas com a vantagem de ninguém lhe chamar assim (mas de qualquer modo nunca ia lá à quinta). Um tipo saía de casa relativamente de manhã, lá para as onze, e fazia-se a ronda dos comerciantes. Haviam sempre dois ou três italianos que tanto vendiam produtos de base – umas massas especiais, queijos – como produtos mais sofisticados. Comprava uns arancini, um fiambre com rosmaninho de chorar por mais, e depois passava noutro vendedor com uma escolha pletórica de queijo e charcutaria, de Espanha, de França, de Itália, e saía de lá com umas fatias de pancetta, com um comté, com um morbier. Depois passava pela tenda biológica, um pâté caseiro e tal, e um saltinho à mercearia portuguesa com a vitrine cheia de erros, para ir comprar pão, mais chá e uns legumes na loja do casal dinamarquês-marroquino onde havia produtos dos dois países, e ia feliz para casa para preparar o brunch, ritual semanal com restantes membros da quasi-família com quem morava.

Aqui em Lisboa a malta parece alérgica aos vocábulos “brunch”, “rúcula” e quejandos, e eu percebo: é porque vêm associados a outros termos, estes insuportáveis: “gourmet”, “urbano”, “de bairro”. Mas, na verdade, não há nada de mal em comer rúcula - que mais não é que uma erva daninha – ou produtos de boa qualidade, ou legumes que chegam um pouco mais tarde a Portugal devido à nossa eterna condição periférica. Em Bruxelas, para além dos produtos trazidos pelas comunidades imigrantes, viam-se de novo legumes e frutos que tinham sido esquecidos, postos certamente à margem pela estandardização forçada pela grande distribuição. Em Portugal parece-me que é ainda é complicado sair da lógica do hipermercado, e que os grandes grupos têm quase um monopólio sobre aquilo que se come.

Mas o que é insuportável em Lisboa, onde os mercados são paulatinamente substituídos por lojas ‘gourmet’, é que esses novos produtos não parecem ter sido trazidos por imigrantes ou pessoas interessadas em comer melhor, mas pelas tias dos bairros abastados que foram uma e outra vez passar o fim-de-semana a Londres e que acharam “giríssimo” o “conceito” de mercado, aquela gente toda e não-sei-quê, e se fizéssemos o mesmo em Lisboa? É a mesmo tipo de tia que vi na LX Factory a vender artesanato (mais uma vez) giríssimo e cheio de cores, e que se apropriou estranhamente de lugares onde existe outro tipo de população - como os mercados. Uma espécie de gentrificação à portuguesa. E assim, comer rúcula em Lisboa tornou-se terrivelmente snob.

Aquilo que gostava em Saint-Gilles era de fazer a volta ao mundo em meia-dúzia de metros, e maravilhar-me diante de cousas deliciosas – sem que alguém se tivesse lembrado de lhe pôr o nome ‘gourmet’.