January 27, 2010 - 1 comment.

Sobre a interdição das burqas em França

(a partir de um debate no http://jugular.blogs.sapo.pt/)

A comparação com o hábito das freiras é recorrente quando se fala de burqas, mas não me parece sempre judiciosa.

Primeiro, as freiras fazem por norma parte de congregações religiosas. Segundo, elas não sofrem a pressão comunitária e social elevadíssima que, supomos todos, sofre a maioria das mulheres que usam burqa. Terceiro, elas continuam reconhecíveis.

O debate não é apenas religioso, mas sobretudo social. Ao tapar integralmente o corpo e a cara estamos a recusar sermos reconhecidos e fazer parte do espaço público. De uma certa forma, para muitos efeitos uma mulher de burqa não existe: é a anulação da individualidade que se reflecte, antes de mais, nos traços físicos do nosso corpo. Voluntária ou não. Não se pode relativizar a importância do porte de um objecto que nos esconde a marca distintiva de cada ser humano: o rosto.

Assumir a burqa como um acto livre é a interiorização da repressão. Se quisermos levar ao extremo, nunca nenhum membro de uma seita dirá que não é livre.

Apesar de tudo sou em princípio contra a interdição da burqa, porque a lei pode causar efeitos perversos, mas o tema não se presta a absolutismos. Mas se o véu foi proibido nas escolas francesas (e belgas) não foi por islamofobia mal disfarçada, mas porque é inegável o jugo e a pressão do islão radical em sectores inteiros da sociedade. De resto, o problema é antes de mais de segurança pública: uma mulher de burqa não sendo reconhecível vários problemas se levantam na vida de todos os dias, desde ir ao banco até ir buscar os filhos à escola.

Reduzir o problema à glória passada da França e a perigos imaginados é um insulto a todo o trabalho de defesa das mulheres muçulmanas que é levado a cabo como associações como a Ni putes ni soumises. Por outro lado, basta ver a quantidade de ameaças de morte ao imã de Saint-Denis, que é contra o porte da burqa, para perceber que o assunto ainda é, apesar de tudo, relevante.

De resto, não existe nenhuma contradição entre, por exemplo, defender a liberdade e proibir o uso do véu nas escolas. Da mesma maneira que a direita francesa usa e abusa do eleitoralismo, também a esquerda, na sua febre de relativismo, esquece que nem sempre o perigo se reduz a essa mesma liberdade absoluta, recitada abusivamente. O mecanismos sociais são muito mais complexos: como se não existissem proselitismos, relações de poder, violências e pressões sociais ou comunitárias. A lei deve, em principio, proteger os mais fracos de tradições e costumes impostas pelos mais fortes.

Published by: Nuno in France, Avancées sociales

Comments

Vedrana
January 28, 2010 at 3:28 pm

l’idéal serait que les femmes ne la portent plus d’elle-même.
mais elles sont dans des situations qui font qu’elles ne peuvent pas se le permettre.
malheureusement.
la religion les tient en laisse.

la france qui veut l’interdire, c’est pas une solution.
de la part du gouvernement français, ça veut dire “soyez comme nous, soyez bien chrétien, soyez bien blanc, on vous guidera, on va effacer les différences” etc.
c’est ce que la droite sous-entend par cette loi.
(je suis athée, pas française, et de gauche, donc voilà ce que j’en pense).

t’as trop raison pour le fait que le port de la burqa leur enlève leur individualité.
elles font parties du décor du coup, du paysage, comme le banc public sur lequel on s’assoit.
c’est marrant car j’ai écris un petit truc là-dessus dans mon roman, le fait de faire parti du décor.

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