November 11, 2015 - No Comments!

Esquerda e direita

Não acredito em milagres, mas acredito em mudanças de rumo. Portugal tinha um governo de direita muito agressivo, a milhas do que é a direita em França ou na Bélgica que nunca desmantelaria o Estado social como o governo de Passos Coelho o fez. De todos os países que conheço bem, é em Portugal que a tensão social (mascarada de meritocracia) se faz mais sentir, e onde parece natural haver castas sócio-económicas, sem mobilidade nem justiça social. Não acredito em milagres, mas se tudo correr bem este governo de esquerda apontará na direcção de um país mais solidário, mais igualitário e mais justo, ou pelo menos tentará sarar as feridas de tantos anos de capitalismo o mais selvagem e desavergonhado possível. E não é preciso ser de esquerda radical para o constatar.

November 11, 2015 - No Comments!

RIP

810838

O que o Paulo Cunha e Silva fez em dois anos é de tal forma assombroso, prodigioso, que a percepção da cidade mudou radicalmente. Como é que graças à visão, à inteligência e à energia de uma única pessoa uma cidade pode tanto mudar? De repente, mesmo sem dinheiro - e longe da capital - mas arregaçando as mangas, a cultura tomou conta da cidade e mil coisas aconteceram. Nem parecia o mesmo Porto triste de antigamente.
Para além da tragédia pessoal, o que é triste é pensar que isto era apenas o início. Que hajam outros a pegar no trabalho dele e a levá-lo a bom Porto.

February 8, 2015 - No Comments!

Du dessin

Je regarde le livre d’Eric Lambé. Puis je me demande : comment fait-il, comment faisons-nous pour survivre ? Son intelligence susurrée, discrète, délicate, sereine, comment fait-elle pour exister ici et maintenant ? Je vais lui écrire et lui demander : « monsieur Lambé, enseignez-moi à creuser une tranchée assez épaisse et profonde, enseignez-moi à fourrer ces tranchées avec les débris des images inutiles. Je l’inviterai à parcourir un bout de chemin avec moi, et on discutera de ces dessins et de ces textes où rien n’est conçu pour séduire, rien n’est conçu pour vendre une idée, et tout est suffisamment vide pour que l’imagination des gens intelligents puisse travailler, abrité de toute vulgarité.

November 29, 2014 - No Comments!

O estrangeiro

Estava a ler uma entrevista dos Dead Combo no Expresso e leio a resposta do Pedro Gonçalves à pergunta "Que lições tiraram de tantas viagens ao estrangeiro?". Diz ele: "De cada vez que volto a Portugal, regresso mais contente. Os portugueses são muito mais educados no dia a dia do que na maioria dos países europeus. Em Espanha, não há filas prioritárias para grávidas nem para velhos."
E fiz o exercício de imaginar um inglês ou um alemão a dizer isto, esta generalização. Soaria mal, no mínimo. Não são só os franceses a serem chauvinistas.

November 28, 2014 - No Comments!

Quatro livros

Em dois meses passados em Lisboa comprei quatro livros. Acho que não me arrependerei da compra de nenhum deles.

1507-1 (1) 9789898268167 arton13121507-1

Devorei o "Ouro e Cinza" do Paulo Varela Gomes. Portugal é um país de cronistas, e muitos de nós aprenderam a ler graças às colunas do Público ou do Expresso. Pedro Mexia, Eduardo Prado Coelho, Miguel Esteves Cardoso, Manuel António Pina et caetera. Talvez me engane, mas nunca vi tanto espaço, ou tão nobre, dedicado à arte de ter uma opinião noutros jornais que consulto. No Libération estão condenados lá para o fim, todos juntos, nas páginas mais feias do quotidiano francês. No Le Monde nunca retive nenhum nome de cronista. Mas aqui em Portugal gostamos dessa fórmula do pequeno texto que fale de nada e de tudo e que salta de tema em tema com um olhar um pouco afastado, porventura semelhante ao homem da rua que tem ali um porta-voz.

November 21, 2014 - No Comments!

A praga da palavra ‘gourmet’ em Portugal.

 

mercadogourmet

 

Uma das coisas de que mais gostava em Bruxelas, um dos meus maiores prazeres, era ir ao mercado ao Sábado ou ao Domingo de manhã.

Devido aos muitos anos de especulação imobiliária e de destruição massiva do património que já não interessava economicamente, não restam muitos mercados cobertos em Bruxelas – definitivamente uma cidade que não gosta dela própria.

A zona onde morei durante os últimos quatro anos – assim uma mistura de Anjos e Mouraria, ou seja, artistas precários, famílias de classe média, imigrantes, malta da boémia, tudo bastante à esquerda – possuía o mercado mais antigo da cidade. Tinha lugar todas as manhãs, e à quinta-feira havia uma versão maior, alargada àquilo que em Portugal se conviria a chamar ‘gourmet’ – mas com a vantagem de ninguém lhe chamar assim (mas de qualquer modo nunca ia lá à quinta). Um tipo saía de casa relativamente de manhã, lá para as onze, e fazia-se a ronda dos comerciantes. Haviam sempre dois ou três italianos que tanto vendiam produtos de base – umas massas especiais, queijos – como produtos mais sofisticados. Comprava uns arancini, um fiambre com rosmaninho de chorar por mais, e depois passava noutro vendedor com uma escolha pletórica de queijo e charcutaria, de Espanha, de França, de Itália, e saía de lá com umas fatias de pancetta, com um comté, com um morbier. Depois passava pela tenda biológica, um pâté caseiro e tal, e um saltinho à mercearia portuguesa com a vitrine cheia de erros, para ir comprar pão, mais chá e uns legumes na loja do casal dinamarquês-marroquino onde havia produtos dos dois países, e ia feliz para casa para preparar o brunch, ritual semanal com restantes membros da quasi-família com quem morava.

Aqui em Lisboa a malta parece alérgica aos vocábulos “brunch”, “rúcula” e quejandos, e eu percebo: é porque vêm associados a outros termos, estes insuportáveis: “gourmet”, “urbano”, “de bairro”. Mas, na verdade, não há nada de mal em comer rúcula - que mais não é que uma erva daninha – ou produtos de boa qualidade, ou legumes que chegam um pouco mais tarde a Portugal devido à nossa eterna condição periférica. Em Bruxelas, para além dos produtos trazidos pelas comunidades imigrantes, viam-se de novo legumes e frutos que tinham sido esquecidos, postos certamente à margem pela estandardização forçada pela grande distribuição. Em Portugal parece-me que é ainda é complicado sair da lógica do hipermercado, e que os grandes grupos têm quase um monopólio sobre aquilo que se come.

Mas o que é insuportável em Lisboa, onde os mercados são paulatinamente substituídos por lojas ‘gourmet’, é que esses novos produtos não parecem ter sido trazidos por imigrantes ou pessoas interessadas em comer melhor, mas pelas tias dos bairros abastados que foram uma e outra vez passar o fim-de-semana a Londres e que acharam “giríssimo” o “conceito” de mercado, aquela gente toda e não-sei-quê, e se fizéssemos o mesmo em Lisboa? É a mesmo tipo de tia que vi na LX Factory a vender artesanato (mais uma vez) giríssimo e cheio de cores, e que se apropriou estranhamente de lugares onde existe outro tipo de população - como os mercados. Uma espécie de gentrificação à portuguesa. E assim, comer rúcula em Lisboa tornou-se terrivelmente snob.

Aquilo que gostava em Saint-Gilles era de fazer a volta ao mundo em meia-dúzia de metros, e maravilhar-me diante de cousas deliciosas – sem que alguém se tivesse lembrado de lhe pôr o nome ‘gourmet’.

 

 

 

November 20, 2014 - No Comments!

Hokusai, Paris.

1280px-The_Great_Wave_off_Kanagawa

Je n’ai jamais spécialement aimé Paris. Bon, voilà ce qui est dit.

Pendant très longtemps je me sentais coupable de le penser, alors j’inventais des schémas mentaux qui tournaient invariablement autour d’un ‘oui, mais…’ peu convaincant : ‘oui, Paris est stressante et les gens insupportablement discourtois, mais il y a quantité de monuments et musées’.

La première fois que je suis arrivé à Paris, il y a une douzaine d’années, dans ma plus profonde ignorance j’attendais, comme tous les japonais qui caressent l’image édulcorée de la ville, les couleurs des films de Jean-Pierre Jeunet et toutes les autres cartes postales prémonitoires d’Instagram. Evidemment, le deuxième jour je monte l’escalier qui mène au Sacré-Cœur, en tant que touriste néophyte, et là, en regardant vers le sud les grands boulevards haussmanniens, le choc : j’ai réalisé que Paris est une masse très, très compacte de toits gris-foncé et pierre de taille gris-clair, et tout était soit massif soit gris soit les deux. Et le plus je connaissais cette ville (où j’ai dû aller vingt ou trente fois, je ne sais plus) le plus je constatais cette presque absolue manque de couleur dans l’espace publique – un décor théâtrale à une échelle démesurée habité par une population ressemblant à des mormons dépressifs, malpolie et triste.

Je me suis rendu compte avec le temps d’une autre chose : ce qui me plaît dans les villes c’est justement ce que Paris ne possède pas, ou plus : le désordre, la surprise, les endroits où la nature menace envahir ce qui aurait pu paraître durable autrefois, enfin, le temps qui passe et les ruines qui restent, la base sous-marine de Lorient et les masses granitiques de Porto recouvertes de mousse – en bon français, les vieilles pierres. Mais à Paris les pierres ne semblent jamais vieilles dans cette maîtrise rationnelle des éléments, des blocs taillés jusqu’à la perfection qui se répètent et répètent et répètent à chaque boulevard, sans étonnement, sans individualité, sans émoi, comme la maîtrise de la nature à la manière des jardins à la française, où un arbre perd son sens premier, sa valeur d’arbre, pour devenir un outil, un élément réduit à sa dimension décorative.

Du coup il y a un énorme contraste entre ces bâtiments monumentaux et écrasants, entourés d’arbres d’agrément, et le corps minuscule, inconfortable, trop fragile et trop organique pour faire face à des monstres de pierre de taille et fer forgé. Des millions de francs et d’euros sont dépensés pour les ériger et les entretenir, mais on reste toujours sous la pluie et la boue pendant une heure en attendant de rentrer dans le plus grandiloquent parmi eux, le Grand Palais, pour aller voir une exposition de Hokusai dans ce temple du savoir.

Et, comme toujours à Paris, on oublie vite la pluie et le froid en arrivant dans une exposition fabuleuse qui nous marquera pour toujours.

Je soupçonnais déjà Hokusai d’être un génie.

L’exposition respectait un ordre chronologique, et ce choix n’a jamais fait autant de sens. Toute sa vie a été une quête, une mission pour comprendre la nature à travers sa représentation. Certes, ça semble générique, ou essentialiste, mais l’essence de la nature se trouve dans l’accumulation de dessins de l’écume des vagues, des étoffes des kimonos, des amas de feuilles d’arbres, des visages de femmes et des belles choses, ou des choses qui deviennent belles sur sa feuille. Ce qui est important est que, dans les aplats et motifs extraordinaires, recouverts d’un trait de contour précis et délicat, réel et décoration se mêlent, s’immiscent, et nous ne savons plus lequel est lequel. Ce qui est important, également, est que Hokusai, qui s’est nommé lui-même ‘fou de peinture’, est arrivé à 1820 avec soixante ans (la période Iitsu) en comprenant un peu mieux le monde (et nous aussi, du coup) : assez, en tous cas, pour produire les merveilleuses impressions du monde flottant appelées ‘Trente-six vues du mont Fuji’ et les ‘Cascades’, où le bleu de Prusse se manifeste à chaque horizon, chaque goutte de pluie, chaque surface d’eau. C’est l’avant-dernière salle de l’exposition, avant d’accéder à son émouvante et célèbre déclaration: Depuis l’âge de six ans, j’avais la manie de dessiner les formes des objets. Vers l’âge de cinquante, j’ai publié une infinité de dessins ; mais je suis mécontent de tout ce que j’ai produit avant l’âge de soixante-dix ans. C’est à l’âge de soixante-treize ans que j’ai compris à peu près la forme et la nature vraie des oiseaux, des poissons, des plantes, etc. Par conséquent, à l’âge de quatre-vingts ans, j’aurai fait beaucoup de progrès, j’arriverai au fond des choses ; à cent, je serai décidément parvenu à un état supérieur, indéfinissable, et à l’âge de cent dix, soit un point, soit une ligne, tout sera vivant. Je demande à ceux qui vivront autant que moi de voir si je tiens parole. Ecrit, à l’âge de soixante-quinze ans, par moi, autrefois Hokusai, aujourd’hui Gakyo Rojin, le vieillard fou de dessin.

Hokusai est mort à 89 ans, et à cette âge-là il avait déjà réussi à tirer un peu le rideau et à accéder à que qui se cache derrière.

Je n’ai pas été la voir, mais en même temps il avait une exposition ‘Duchamp’ à Beaubourg. Et c’est intéressant de concevoir un parallèle entre l’héritage laissé par les deux. Duchamp a évidemment influencé durablement le champ de l’art après lui ; et Hokusai a influencé une autre chose, ce qu’on appelle aujourd’hui l’illustration : les images construites avec un savoir-faire artisanal, une croyance dans les éléments du dessin, plus puissants que tout discours construit autour de lui.

Puis on sort du Grand Palais et on se sent terriblement injustes avec cette ville. On se rend compte de la quantité inimaginable de trésors exhibés, de choses belles et sophistiquées qu’y existent. Le soin porté à la plus minuscule portion de la vie, qui nous fait tous – ceux qui n’y habitent pas - passer par des barbares. L’amour très sincère de la culture, au sens large comme au sens strict.

Et de l’effort demandé à chacun pour habiter une ville très, très dense, où à la fois on survit et on s’habille très chic, où on essaye d’avoir une vie de quartier et on est poussé par des hordes de touristes, où chacun doit s’organiser terriblement pour avoir une vie en dehors du travail – mais où les amis ont presque toujours du temps pour me voir.

October 31, 2014 - No Comments!

Lisboa

lisboa

 

Lisboa é a capital rica de um país pobre. Pelo menos é essa a sensação que fica após quatro semanas cá. É uma capital onde o metro passa por vezes de dez em dez minutos, mas algumas das estações por onde ele passa são as mais majestosas que já vi, do tamanho de palácios. É uma capital onde existem montes de museus interessantes, alguns de fazer corar de inveja outras capitais de tamanho equivalente e PIB bem mais elevado – mas num país cuja segunda cidade, com a exceção honrosa de Serralves, corresponde a um quasi-deserto museológico (podes tirar o homem do Porto, mas não podes tirar o Porto do homem). É uma capital onde, como em todas as outras, se passa num piscar de olhos do bonito ao feio. A diferença é que tudo aqui parece mais contrastado, e o bonito é-o muitas vezes belíssimo, sublime, absolutamente único e o feio digno de um pesadelo do qual só se quer ir embora muito rapidamente. Experimentem ir até Sintra pelo IC19, por exemplo.

Algumas cidades (o Porto, Bruxelas) escaparam mais ou menos a este urbanismo de subúrbio selvagem e feito à pressa, mas ao passar de carro por Benfica, Buraca, Queluz só consigo pensar numa versão pior das barras de betão parisienses onde os portugueses como nós foram alojados nos anos sessenta. Descampados, alguns campos com vacas e vagos terrenos cultivados, e depois torres de dez andares e auto-estradas, muitas auto-estradas, e parece que tudo o que foi planeado nos últimos quarenta anos em Lisboa o foi a pensar que todo o lisboeta teria carro. E a verdade é que parece que tem.

E ao mesmo tempo vai-se aos bairros históricos, às casas de calcário e azulejos, adivinha-se o Tejo por trás, e à arquitetura português suave extraordinariamente rica em detalhes gráficos, as portas em metal, as dezenas de praças com quiosques e árvores, as ruas encavalitadas umas nas outras, uma loja que, critique-se ou não, deve ser a mais bela que já vi (a da vida portuguesa no Indentente), a óbvia cor e a luz que ainda não vi noutro lado, e Sintra e o Guincho, e isto tudo é uma fonte inesgotável de estímulo visual para um designer gráfico. E um dos lugares mais bonitos do mundo.